
RESISTÊNCIA AO FLUXO SANGUÍNEO PULMONAR
Este post é a transcrição da videoaula publicada em nosso canal do YouTube "RESISTÊNCIA AO FLUXO SANGUÍNEO PULMONAR".
TRANSCRIÇÕESSISTEMA RESPIRATÓRIO
Mirian Kurauti
6/15/20268 min read
No vídeo anterior, a gente viu que a resistência ao fluxo sanguíneo é mais baixa na circulação pulmonar do que na circulação sistêmica e isso é importante pra manter o fluxo sanguíneo pulmonar tão alto quanto o fluxo sanguíneo sistêmico, mesmo que as pressões dentro dos vasos pulmonares sejam bem mais baixas do que as pressões dentro dos vasos sistêmicos.
Porém, essa resistência ao fluxo sanguíneo pulmonar não é fixa, ela pode variar. E um fator que pode aumentar essa resistência e dificultar o fluxo sanguíneo pulmonar é a diminuição e o aumento do volume pulmonar.
Lembra lá dos volumes e capacidades pulmonares que a gente já explicou num vídeo anterior. Após uma expiração tranquila, o volume de ar que se encontra nos pulmões é igual ao volume de reserva inspiratório (VRI) somado ao volume residual (VR), ou seja, é igual à capacidade residual funcional (CRF). Nesse volume da capacidade residual funcional, os vasos pulmonares apresentam a menor resistência ao fluxo sanguíneo.
Porém, quando a gente faz uma expiração forçada, expirando bastante ar até restar apenas o volume residual (VR), a resistência ao fluxo sanguíneo nos vasos pulmonares aumenta.
Da mesma forma, conforme a gente vai inspirando tranquilamente e depois de maneira forçada enchendo os pulmões até a capacidade pulmonar total (CPT), a resistência ao fluxo sanguíneo nos vasos pulmonares também aumenta.
Mas a questão é: o que explica esse aumento da resistência ao fluxo sanguíneo em baixos e altos volumes pulmonares?
Pra responder a essa pergunta, a gente precisa entender que, na circulação pulmonar, a gente pode separar os vasos pulmonares em dois grupos:
os vasos alveolares, isto é, vasos menores, principalmente capilares, que ficam cercados por alvéolos por todos os lados;
e os vasos extra-alveolares, vasos maiores que não ficam cercados por alvéolos, mas ainda assim estão dentro dos pulmões.
Cada um desses tipos de vasos (alveolares e extra-alveolares) tem sua resistência alterada de maneira diferente em baixos e altos volumes pulmonares. Como assim?
Presta atenção. Durante a inspiração, os alvéolos vão se enchendo de ar, e a pressão dentro dos alvéolos, isto é, a pressão alveolar, vai aumentando. Quanto maior for a pressão alveolar, mais a parede desses alvéolos vai ser esticada e os vasos alveolares que ficam meio que colados nessa parede também podem ser esticados; e quando isso acontece, o comprimento desses vasos aumenta.
E aí, lembre da lei de Poiseuille que determina a resistência dos vasos sanguíneos: se o comprimento dos vasos aumenta, a resistência aumenta.
E mais. Quanto maior for a pressão alveolar, mais os alvéolos vão apertar os vasos alveolares que ficam entre eles, diminuindo assim o raio desses vasos. E aí, de novo, lembre da lei de Poiseuille. Se o raio diminui, a resistência aumenta ainda mais.
Porém, ao mesmo tempo, os vasos extra-alveolares que não estão entre os alvéolos, mas ainda assim estão dentro dos pulmões, não sofrem com o aumento da pressão alveolar, mas sofrem com a diminuição da pressão intrapleural que acontece durante a inspiração.
Lembra, quando a gente inspira, a caixa torácica expande, puxa a pleura parietal enquanto a pleura visceral fica colada nos pulmões. Isso tende a expandir a cavidade ou espaço intrapleural, diminuindo assim a pressão dentro desse espaço, o que vai deixando a pressão intrapleural cada vez mais negativa. Essa pressão intrapleural mais negativa funciona como um “vácuo” puxando a parede dos vasos extra-alveolares, aumentando o seu raio e diminuindo a sua resistência.
-Tá, professora, então quando a gente inspira, aumenta o volume pulmonar e a resistência aumenta nos vasos alveolares, mas diminui nos vasos extra-alveolares. Mas e aí, o que acontece com a resistência total ao fluxo sanguíneo pulmonar?
Bom, lembra que os vasos extra-alveolares e os vasos alveolares estão em série, um depois do outro, porque são as artérias, arteríolas, capilares, vênulas e veias da circulação pulmonar. Logo, a resistência total desses vasos em série é igual à soma da resistência desses vasos, ou seja, é igual à soma da resistência dos vasos extra-alveolares e alveolares (linhas tracejadas).
E o resultado dessa soma, isto é, a resistência total, pode ser representada pela linha contínua. Portanto, é por causa do aumento da resistência dos vasos alveolares que a resistência total ao fluxo sanguíneo pulmonar aumenta conforme o volume de ar nos pulmões aumenta.
É tipo uma rua que é bem mais larga no começo e depois fica mais estreita. No começo, a resistência é baixa e o trânsito flui rápido, mas quando a rua fica estreita, a resistência se torna alta e o trânsito flui mais devagar. A resistência de cada trecho dessa rua se soma pois, conforme os carros vão passando, eles vão enfrentando as resistências de cada trecho, uma depois da outra, em série, e é por isso que, no final, a resistência total é a soma das resistências de cada trecho da rua. Pegaram a ideia?
Bom, até agora a gente viu o que acontece com a resistência total quando o volume pulmonar aumenta, mas e quando o volume pulmonar diminui em direção ao volume residual (VR), como acontece durante uma expiração forçada, o que acontece com a resistência total?
Durante uma expiração forçada, os alvéolos vão se esvaziando e a pressão alveolar vai diminuindo, e a parede desses alvéolos vai se retraindo. Assim, os vasos alveolares que ficam meio que colados nessa parede também vão se retraindo, e quando isso acontece o comprimento desses vasos diminui.
Além disso, quanto menor for a pressão alveolar, menos os alvéolos vão apertar os vasos alveolares que ficam entre eles, aumentando assim o raio desses vasos. E como a gente já sabe, se o comprimento diminui e o raio aumenta, a resistência diminui.
Porém, ao mesmo tempo que a resistência nos vasos alveolares diminui, a resistência nos vasos extra-alveolares aumenta durante uma expiração forçada.
Lembra que quando a gente faz uma expiração forçada, a caixa torácica é comprimida, aperta a pleura parietal, diminui o espaço intrapleural, aumentando assim a pressão intrapleural que vai ficando cada vez menos negativa ou mais positiva. E essa pressão mais positiva pode pressionar a parede dos vasos extra-alveolares, diminuindo o seu raio, aumentando assim a sua resistência.
E aí, somando as resistências dos vasos alveolares e extra-alveolares (linhas tracejadas), a gente vai ter a resistência total ao fluxo sanguíneo pulmonar (linha contínua) que agora, em uma expiração forçada, aumenta por causa do aumento da resistência dos vasos extra-alveolares.
Então, o que a gente pode concluir até aqui é que: quando a gente faz uma respiração forçada aumentando o volume de ar que entra e sai dos pulmões, a resistência ao fluxo sanguíneo pulmonar pode aumentar nos menores e maiores volumes pulmonares, o que poderia diminuir o fluxo sanguíneo pulmonar.
E sabe quando a gente faz uma respiração forçada? Quando a gente faz exercício físico.
-Ué, professora, então quer dizer que quando a gente faz exercício físico a resistência aumenta e o fluxo sanguíneo pulmonar diminui? Mas isso não iria prejudicar as trocas gasosas?
Com certeza, um aumento da resistência total ao fluxo sanguíneo pulmonar poderia sim prejudicar as trocas gasosas. Mas isso não acontece, sabe por quê?
Porque a resistência total ao fluxo sanguíneo pulmonar não depende apenas do volume pulmonar, depende também da pressão dentro dos vasos, ou seja, da pressão intravascular, principalmente da pressão dentro das artérias pulmonares.
E adivinha o que acontece quando a gente faz exercício físico?
O débito cardíaco, isto é, o volume de sangue que o coração ejeta por minuto, aumenta, aumentando o fluxo sanguíneo pulmonar e a pressão arterial pulmonar.
Quando a pressão arterial pulmonar aumenta, duas coisas acontecem.
Primeiro. Alguns vasos alveolares que podem se encontrar fechados, sem fluxo sanguíneo no repouso, podem, por conta do aumento da pressão arterial pulmonar, ser abertos e passarem a ter fluxo sanguíneo durante o exercício físico.
Dizemos então que acontece um recrutamento de vasos alveolares, que adiciona vias paralelas pro fluxo sanguíneo pulmonar. Quanto mais vias paralelas por onde o sangue pode fluir, menor a resistência total ao fluxo sanguíneo, como a gente viu em um vídeo anterior.
Segundo. O aumento da pressão arterial pulmonar também tem outro efeito: a distensão dos vasos alveolares.
Lembre-se de que qualquer aumento da pressão dentro dos vasos alveolares estica com uma certa facilidade a parede elástica desses vasos, já que eles têm uma maior complacência e podem se distender ainda mais, aumentando o raio desses vasos, o que, consequentemente, diminui a resistência ao fluxo sanguíneo pulmonar.
Portanto, tanto o recrutamento quanto a distensão dos vasos alveolares são os dois principais mecanismos que explicam a diminuição da resistência diante de um grande aumento do fluxo sanguíneo pulmonar, como acontece durante o exercício físico. E essa diminuição da resistência compensa o aumento da resistência que poderia acontecer na respiração forçada que acontece durante o exercício físico.
Bom, então, resumindo tudo o que a gente viu nesse vídeo, lembre-se de que:
A resistência ao fluxo sanguíneo pulmonar depende de dois fatores: volume pulmonar e pressão intravascular.
O aumento do volume pulmonar em direção à capacidade pulmonar total (CPT) e a diminuição do volume pulmonar em direção ao volume residual (VR), como acontece durante uma respiração forçada, aumentam a resistência total ao fluxo sanguíneo pulmonar.
Porém, durante uma respiração forçada, como acontece no exercício físico, ocorre aumento do débito cardíaco, do fluxo sanguíneo pulmonar e da pressão nas artérias pulmonares, o que leva ao recrutamento e distensão dos vasos alveolares, diminuindo assim a resistência, mantendo assim um alto fluxo sanguíneo pulmonar.
E pra finalizar, embora até aqui a gente tenha considerado que a resistência, a pressão e, consequentemente, o fluxo sanguíneo pulmonar sejam iguais em todas as regiões dos pulmões, isso não é verdade. Assim como a ventilação não é uniforme ao longo de todas as regiões dos pulmões, o fluxo sanguíneo também não é. E é exatamente sobre essas diferenças regionais do fluxo sanguíneo pulmonar que a gente vai falar no próximo vídeo, não perca!
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A gente se vê num próximo vídeo, abraço!


Sobre a autora
Mirian Ayumi Kurauti é apaixonada pela fisiologia humana, com uma trajetória acadêmica admirável. Ela se formou em Biomedicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), fez mestrado e doutorado em Biologia Funcional e Molecular com ênfase em Fisiologia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e ainda atuou como pesquisadora de pós-doutorado na mesma instituição. Além disso, já lecionou fisiologia humana na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e biologia celular na UEL. A sua última experiência como professora de fisiologia humana foi na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Fundadora da MK Educação Digital Ltda (MK Fisiologia), atualmente, Mirian é a mente criativa por trás de todos os conteúdos publicados nas redes sociais da empresa.
Apaixonada pela docência, Mirian adora dar aulas de fisiologia humana, mas de um jeito mais descontraído e se diverte muito ensinando. Ela está sempre buscando aprender algo novo não só sobre fisiologia, mas sobre qualquer coisa sobre a vida, o universo e tudo mais. Por isso, é uma consumidora compulsiva de conteúdos de divulgadores científicos. Nas horas vagas, você pode encontrá-la na piscina, treinando e participando de competições de natação. Para Mirian, a vida só tem graça, se ela tiver desafios a serem superados. Hoje, o seu maior desafio é ajudar o maior número de estudantes a entender de verdade a fisiologia humana, principalmente através de suas videoaulas publicadas no canal do YouTube MK Fisiologia.



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