DISTRIBUIÇÃO do FLUXO SANGUÍNEO PULMONAR: ZONAS DE WEST

Este post é a transcrição da videoaula publicada em nosso canal do YouTube "DISTRIBUIÇÃO do FLUXO SANGUÍNEO PULMONAR: ZONAS DE WEST".

TRANSCRIÇÕESSISTEMA RESPIRATÓRIO

Mirian Kurauti

6/22/20269 min read

Assim como a ventilação não é uniforme em todas as regiões dos pulmões, o fluxo sanguíneo também não é. Nesse vídeo, a gente vai falar sobre as diferenças regionais do fluxo sanguíneo pulmonar, bora?

E aí pessoal, tudo bem com vocês?

Eu sou Mirian Kurauti aqui do canal MK Fisiologia, e antes de começar esse vídeo eu tenho uma pergunta pra você: esse canal já te ajudou a entender alguma coisa da fisiologia que você não tava conseguindo entender?

Se a sua resposta for sim, confere aí pra ver se você já tá inscrito no canal, porque tem muita gente que assiste os nossos vídeos, mas ainda não tá inscrito no canal. Então, se esse for o seu caso, ajuda a gente aí vai, dá tanto trabalho fazer essas videoaulas que você não tem nem ideia.

Dito isso, agora sim, bora falar sobre as diferenças regionais do fluxo sanguíneo pulmonar?

Nos vídeos anteriores, a gente viu que o fluxo sanguíneo pulmonar é praticamente o mesmo que o fluxo sanguíneo sistêmico, isto é, cerca de 5 L/minuto, considerando um indivíduo jovem saudável do sexo masculino.

Porém, a pressão dentro dos vasos da circulação pulmonar é bem mais baixa do que a pressão dentro dos vasos sistêmicos, isso porque a resistência dos vasos pulmonares é bem menor que a resistência dos vasos sistêmicos.

Mas, o mais importante agora é entender que esse fluxo sanguíneo pulmonar de cerca de 5 L/minuto não é distribuído de forma homogênea entre todos os vasos pulmonares, isto é, o fluxo sanguíneo varia de região pra região nos pulmões, assim como a ventilação alveolar.

Por exemplo, se eu injetar um pouco de xenônio-133 (Xe-133), isto é, se eu injetar um isótopo radioativo do gás xenônio, dissolvido em uma solução salina, um soro fisiológico, na veia de uma pessoa, rapidamente esse gás vai chegar na circulação pulmonar e vai se difundir pra dentro dos alvéolos. E aí, usando contadores de radioatividade é possível medir a radioatividade emitida por esse xenônio-133.

Se a pessoa tiver sentada com o tronco ereto, a gente vai observar maior radioatividade na região inferior do que na região superior dos pulmões, indicando que mais xenônio-133 chegou nessa região inferior através da circulação pulmonar do que na região superior, ou seja, indicando que mais sangue chegou na base do que no ápice dos pulmões. Portanto, o fluxo sanguíneo na base é maior do que no ápice dos pulmões.

E se você já estudou as diferenças regionais da ventilação alveolar, você provavelmente notou uma semelhança entre a distribuição da ventilação alveolar e a distribuição do fluxo sanguíneo pulmonar, não é mesmo?

Então, seguindo a lógica, eu pergunto: se eu deitar de barriga pra cima, na posição supina, ou em decúbito dorsal, onde você acha que vai ter o maior fluxo sanguíneo agora? Região A, B ou C?

Se você pensou região C, você acertou. Sabe por quê?

Porque assim como a distribuição da ventilação alveolar depende principalmente da gravidade, a distribuição do fluxo sanguíneo também, mas por razões um pouquinho diferentes.

Aqui não é por conta da diferença da pressão intrapleural, mas sim por conta da diferença da pressão hidrostática dentro dos vasos sanguíneos pulmonares, principalmente dentro das artérias pulmonares.

-Tá, professora, mas o que é pressão hidrostática mesmo?

Pressão hidrostática é basicamente a pressão exercida pelo peso de um líquido. Por exemplo, imagine que você tá dentro de uma piscina mergulhando. Onde você acha que a pressão vai ser maior, próximo da superfície ou no fundo da piscina?

No fundo da piscina, claro. Porque lá a pressão hidrostática é maior, tem mais líquido em cima de você sendo “empurrado” pra baixo pela gravidade.

Agora imagina o sangue dentro dos vasos pulmonares, você acha que a pressão hidrostática vai ser maior nos vasos localizados no ápice ou na base dos pulmões?

Na base dos pulmões, é claro. E é por isso que na base, a pressão arterial pulmonar (Pa) é bem maior que a pressão alveolar (PA), isto é, que a pressão dentro dos alvéolos localizados na base dos pulmões.

E aí como a pressão arterial é bem maior que a pressão alveolar, quando o sangue passa pelos vasos alveolares, a parede desses vasos distende porque a pressão de dentro é maior que a pressão de fora. Acontece uma distensão dos vasos alveolares que aumenta o seu raio. E esse aumento do raio dos vasos alveolares, como a gente viu num vídeo anterior, diminui a resistência e aumenta o fluxo sanguíneo.

Conforme o sangue vai fluindo, a pressão dentro desses vasos vai diminuindo, só que mesmo assim, como a pressão arterial é bem maior que a pressão alveolar nessa região dos pulmões, a pressão venosa (Pv) ainda vai ser maior que a pressão alveolar, ou seja, mesmo no final dos vasos alveolares a pressão dentro dos vasos ainda é maior que a pressão fora dos vasos, o que mantém esses vasos distendidos, mantendo a baixa resistência e o alto fluxo sanguíneo.

E além dessa distensão dos vasos alveolares, a maior pressão arterial também pode recrutar mais vasos alveolares, mais vias paralelas pro sangue fluir. E como a gente já explicou num vídeo anterior, isso pode diminuir ainda mais a resistência e aumentar ainda mais o fluxo sanguíneo na base dos pulmões.

Essa região dos pulmões em que a pressão arterial e venosa é maior que a pressão alveolar (PA > Pv > Pa), é chamada de zona 3.

Agora, subindo um pouco, a pressão arterial vai diminuindo, mas ainda assim é um pouco maior que a pressão dentro dos alvéolos da região média dos pulmões, o suficiente pra manter uma certa distensão e um certo recrutamento dos vasos alveolares, mantendo assim uma resistência relativamente baixa e um fluxo sanguíneo relativamente alto, mas, claro, um pouco menor que o fluxo sanguíneo da região inferior dos pulmões.

Mas conforme o sangue flui pelos vasos alveolares da região média, a pressão dentro desses vasos vai diminuindo e se torna menor que a pressão alveolar. E aí, como agora a pressão de dentro se torna menor que a pressão de fora, a parte final desses vasos alveolares é meio que comprimida e o seu raio diminui aumentando um pouco a resistência e diminuindo um pouco o fluxo sanguíneo na região média dos pulmões.

Essa região dos pulmões em que a pressão arterial é maior que a pressão alveolar que é maior que a pressão venosa (Pa > Pa > Pv), é chamada de zona 2.

E se a gente continuar subindo, a pressão arterial vai diminuindo cada vez mais, e os vasos alveolares vão sendo cada vez mais comprimidos e seus raios vão diminuindo cada vez mais, aumentando assim a resistência e diminuindo o fluxo sanguíneo. E é por isso que no ápice o fluxo sanguíneo é menor que na base dos pulmões.

Em alguns casos específicos, em que a pressão arterial cai abaixo do normal, como acontece em quadros de hemorragia, ou em casos em que a pressão alveolar se mantém elevada como acontece na ventilação mecânica com pressão positiva, a pressão alveolar pode superar a pressão arterial nos alvéolos, principalmente, no ápice dos pulmões.

E agora, como já no começo dos vasos alveolares a pressão de fora é maior que a pressão de dentro desses vasos, os vasos podem ser comprimidos já no início, e podem até mesmo ser completamente ocluídos, aumentando infinitamente a resistência, bloqueando assim o fluxo sanguíneo nos alvéolos mais próximos do ápice dos pulmões.

Essa região dos pulmões em que a pressão arterial e a pressão venosa são menores que a pressão alveolar (PA > Pa > Pv), é chamada de zona 1.

Mas de novo, essa zona só aparece em casos específicos, em indivíduos saudáveis, essa zona praticamente (ou quase) não é observada pois, embora a pressão arterial vá diminuindo conforme a gente chega no ápice dos pulmões, essa pressão ainda consegue manter a maioria dos vasos alveolares abertos.

E aqui um detalhe importante, a maioria, mas não exatamente todos os vasos alveolares, isso porque tanto a distensão quanto o recrutamento desses vasos é menor no ápice do que na base dos pulmões por causa da menor pressão arterial que a gente observa no ápice comparado à base dos pulmões.

Então lembre-se, quanto mais a gente sobe em direção ao ápice dos pulmões, menor vai ser o fluxo sanguíneo.

-Ué professora, mas nesse gráfico se a gente olhar bem lá na base dos pulmões, a gente vê uma leve queda do fluxo sanguíneo. E aí? Como que explica isso aí?

Ótima observação. O que acontece é que na extremidade inferior dos pulmões, “na base da base”, a pressão arterial e venosa é sim bem maior que a pressão alveolar, o que distende e recruta todos os vasos alveolares. Porém, os vasos extra-alveolares são comprimidos pela maior pressão intrapleural dessa região, ou seja, o raio desses vasos extra-alveolares diminui, aumentando a resistência e diminuindo o fluxo sanguíneo, como a gente pode observar nesse gráfico.

Essa região a gente chama de zona 4, uma zona que nem todos os livros de fisiologia apresentam porque a queda do fluxo sanguíneo é discreta e ainda assim o fluxo sanguíneo na “base da base” é bem maior que o fluxo sanguíneo no ápice dos pulmões.

Então lembre-se, assim como a distribuição da ventilação alveolar depende da gravidade, a distribuição do fluxo sanguíneo também, gerando as famosas Zonas de West que a gente acabou de explicar.

Essas zonas não têm uma delimitação exata nos pulmões, pois elas dependem basicamente da pressão arterial pulmonar que é uma coisa que pode variar.

Por isso o mais importante é saber explicar o porquê da zona 3 apresentar um fluxo sanguíneo maior que na zona 2 que apresenta um fluxo sanguíneo maior que na zona 1, pois isso vai te ajudar a entender melhor a relação ventilação/perfusão ou relação V/Q que a gente vai falar no próximo vídeo, não perca!

Bom então resumindo tudo o que a gente viu nesse vídeo, lembre-se que:

  • Assim como as diferenças regionais da ventilação alveolar dependem principalmente da gravidade, a distribuição do fluxo sanguíneo pulmonar também depende.

  • Na região inferior, zona 4 e zona 3, a pressão arterial e a pressão venosa são maiores que a pressão alveolar, a resistência é mais baixa e o fluxo sanguíneo é mais alto nessa região.

  • Na região média e superior, zona 2, a pressão arterial vai diminuindo progressivamente em direção ao ápice, aumentando a resistência e diminuindo o fluxo sanguíneo progressivamente em direção ao ápice dos pulmões.

  • Em algumas condições específicas, na região superior, mais próxima do ápice, pode se observar a zona 1, onde a pressão alveolar vai ser maior que a pressão arterial e venosa, e a resistência aumenta infinitamente, ocluindo completamente os vasos alveolares e bloqueando completamente o fluxo sanguíneo.

E aí gostou do vídeo? Se gostou, curte, comenta e compartilha esse vídeo com aquele seu amigo que também tá precisando estudar esse conteúdo.

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E como sempre, qualquer dúvida pode deixar aí nos comentários que a gente tenta responder, beleza?

A gente se vê num próximo vídeo, abraço!

Sobre a autora

Mirian Ayumi Kurauti é apaixonada pela fisiologia humana, com uma trajetória acadêmica admirável. Ela se formou em Biomedicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), fez mestrado e doutorado em Biologia Funcional e Molecular com ênfase em Fisiologia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e ainda atuou como pesquisadora de pós-doutorado na mesma instituição. Além disso, já lecionou fisiologia humana na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e biologia celular na UEL. A sua última experiência como professora de fisiologia humana foi na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Fundadora da MK Educação Digital Ltda (MK Fisiologia), atualmente, Mirian é a mente criativa por trás de todos os conteúdos publicados nas redes sociais da empresa.

Apaixonada pela docência, Mirian adora dar aulas de fisiologia humana, mas de um jeito mais descontraído e se diverte muito ensinando. Ela está sempre buscando aprender algo novo não só sobre fisiologia, mas sobre qualquer coisa sobre a vida, o universo e tudo mais. Por isso, é uma consumidora compulsiva de conteúdos de divulgadores científicos. Nas horas vagas, você pode encontrá-la na piscina, treinando e participando de competições de natação. Para Mirian, a vida só tem graça, se ela tiver desafios a serem superados. Hoje, o seu maior desafio é ajudar o maior número de estudantes a entender de verdade a fisiologia humana, principalmente através de suas videoaulas publicadas no canal do YouTube MK Fisiologia.

Foto da autora do post Mirian Ayumi Kurauti criadora do MK Fisiologia
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