PRIMEIRA À TERCEIRA SEMANA de DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO

Este post é a transcrição da videoaula publicada em nosso canal do YouTube "REVISÃO: PRIMEIRA À TERCEIRA SEMANA de DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO".

TRANSCRIÇÕESFISIOLOGIA DA REPRODUÇÃO

Mirian Kurauti

9/28/202612 min read

No vídeo anterior, a gente viu como acontece a fecundação de um ovócito por um espermatozoide. Esse evento marca o início do desenvolvimento de um novo ser humano.

Não é a fisiologia que estuda todos os detalhes do desenvolvimento embrionário e fetal. Na verdade, é a embriologia.

Por isso, neste e nos próximos vídeos, a gente vai fazer só uma revisão dos principais eventos que acontecem durante o desenvolvimento embrionário e fetal, para depois continuar falando sobre a fisiologia da reprodução. Bora lá?

E aí pessoal, tudo bem com vocês?

Para quem ainda não me conhece, eu sou Mirian Kurauti, professora, mestre e doutora em fisiologia pela UNICAMP, e criadora aqui do canal MK Fisiologia, um canal que tem como principal objetivo descomplicar a fisiologia humana. Então, se você está precisando entender de verdade a fisiologia, já se inscreva no canal e ative as notificações para você não perder nenhuma videoaula que a gente postar por aqui.

Agora, sem mais delongas, bora fazer uma revisão sobre os principais eventos do desenvolvimento embrionário e fetal?

Então, para começar, lembre-se de que da primeira até a oitava semana a gente tem o desenvolvimento embrionário, que é a fase de desenvolvimento em que praticamente todos os órgãos são formados. E da nona até a trigésima oitava semana a gente tem o desenvolvimento fetal, que é a fase em que os órgãos amadurecem e crescem juntamente com as demais estruturas do corpo.

Nesse vídeo, a gente vai começar a falar sobre o desenvolvimento embrionário para depois falar sobre o desenvolvimento fetal. Bora lá?

A primeira semana de desenvolvimento se inicia com a fecundação de um ovócito por um espermatozoide, formando a célula que dará origem a todas as células de um novo ser humano: o zigoto.

A palavra zigoto vem do grego zygōtós, que significa “acoplado” ou “unido”. O que faz todo sentido quando a gente lembra que o zigoto é formado pela “união” do material genético do espermatozoide e do óvulo, não é mesmo?

Assim que formado, o zigoto inicia uma série de divisões celulares — uma série de mitoses chamadas de clivagem —, enquanto vai sendo transportado pelo movimento dos cílios e pelas contrações da tuba uterina em direção ao útero.

A clivagem subdivide o zigoto primeiro em duas células, então em quatro, depois em oito e assim por diante. E, como essas células estão envoltas pela zona pelúcida enrijecida, o embrião como um todo permanece com o mesmo tamanho do zigoto, fazendo com que as células resultantes fiquem cada vez menores a cada divisão.

No terceiro dia de desenvolvimento, o número de células chega a 16, e esse pequeno aglomerado de células pode ser chamado de mórula.

A palavra mórula vem do latim e significa “pequena amora”, que é exatamente com o que esse pequeno aglomerado de células se parece.

No quarto dia de desenvolvimento, a mórula já chega a 32 células e começa a se formar uma cavidade cheia de líquido chamada de cavidade blastocística ou blastocele. A mórula passa, então, a ser chamada de blastocisto.

A palavra blastocisto vem do grego blastos, que significa “broto”, e kystis, que significa “cápsula” ou “bolsa”. Ou seja, é uma bolsa cheia de líquido que guarda as células que vão dar origem a um novo ser humano (ou seja, o broto de um novo ser humano).

O blastocisto se divide em dois grupos de células: a massa celular interna ou embrioblasto, uma massa de células no interior do blastocisto que vai dar origem ao embrião (embrioblasto = “broto” do embrião); e o trofoblasto (uma camada de células que delimitam o blastocisto), que vai dar origem à parte fetal da placenta (trofoblasto = “broto” da “nutrição”, “broto” daquilo que vai nutrir o embrião, “broto” da placenta).

Entre o quinto e o sexto dia de desenvolvimento, o blastocisto já tem cerca de cem células e a zona pelúcida finalmente se rompe — graças à liberação de enzimas pelas células do trofoblasto — e o blastocisto sai de dentro dessa “capa” enrijecida.

A perda da zona pelúcida expõe as proteínas de membrana das células do trofoblasto, que podem interagir com as proteínas de membrana das células do endométrio, e é exatamente essa interação que permite a aderência inicial do blastocisto no endométrio. E é essa aderência inicial, que acontece por volta do sexto dia após a fecundação, que dá início a um processo que a gente chama de implantação (ou nidação), encerrando assim a primeira semana de desenvolvimento.

Ah, e só lembrando, a interação entre o trofoblasto do blastocisto e o endométrio também inicia um outro processo chamado de reação decidual, que nada mais é do que a transformação do endométrio ao redor do blastocisto, fazendo com que esse endométrio se torne um tecido cheio de nutrientes, altamente vascularizado, chamado de decídua, que vai dar origem à parte materna da placenta.

Agora, iniciando a segunda semana de desenvolvimento, no oitavo dia após a fecundação, o trofoblasto se divide em dois grupos de células: o citotrofoblasto (células do “broto” da placenta que delimitam o blastocisto) e o sinciciotrofoblasto (união de células do “broto” da placenta que se originam do citotrofoblasto). Essas células do sinciciotrofoblasto perdem a membrana plasmática e se unem para formar uma estrutura multinucleada que produz e libera enzimas para digerir e invadir o endométrio durante a implantação.

Ao mesmo tempo, o embrioblasto também se divide em duas camadas de células: o epiblasto (a camada “de cima” voltada para o endométrio) e o hipoblasto (a camada “de baixo” voltada para a cavidade do blastocisto). Juntos, epiblasto e hipoblasto formam o que chamamos de disco embrionário bilaminar. E é a partir desse disco que o embrião vai se desenvolver.

Ainda no oitavo dia, surge uma pequena cavidade cheia de líquido no epiblasto que vai se expandindo para formar a cavidade amniótica. Essa cavidade tem como base, tem como “chão”, o epiblasto e como “teto” uma camada mais fina de células, chamadas de amnioblastos, que delimitam a cavidade amniótica.

No nono dia de desenvolvimento, o blastocisto já praticamente se “enterrou” no endométrio graças à invasão do sinciciotrofoblasto, que agora já apresenta pequenos espaços chamados de lacunas trofoblásticas ou simplesmente lacunas.

Ainda no nono dia, algumas células do hipoblasto migram e formam uma fina membrana que reveste a cavidade interna do blastocisto, a membrana exocelômica ou membrana de Heuser, dando origem à cavidade exocelômica, que nada mais é do que o saco vitelino primitivo ou primário, também chamado de vesícula umbilical primitiva ou primária.

Entre o décimo primeiro e décimo segundo dia de desenvolvimento, a implantação é concluída e as lacunas do sinciciotrofoblasto se fundem com algumas glândulas uterinas, que não estão mostradas aqui nessa imagem, e com alguns pequenos vasos sanguíneos do endométrio chamados de sinusoides. O sangue desses vasos começa a fluir pelas lacunas, iniciando a formação da circulação uteroplacentária. É através dessa circulação que o embrião, e futuramente o feto, vão pegar os nutrientes de que precisam para o seu desenvolvimento, e jogar alguns resíduos metabólicos para o organismo da mãe eliminar.

Ao mesmo tempo, o sinciciotrofoblasto começa a produzir e liberar a gonadotrofina coriônica humana ou hCG, um hormônio que mantém o corpo lúteo secretando estrogênios e, principalmente, progesterona para evitar a menstruação e manter a gestação. E é exatamente esse hormônio, o hCG, que os testes de gravidez vendidos na farmácia detectam na urina.

Ainda entre o décimo primeiro e décimo segundo dia, surge uma nova camada de células chamada de mesoderma extraembrionário (esplâncnico e somático) que vão formar o revestimento de uma outra cavidade que começa a aparecer no meio desse mesoderma extraembrionário, a cavidade extraembrionária, mais conhecida como cavidade coriônica.

Por volta do décimo terceiro dia, mais células do hipoblasto migram para formar agora a vesícula umbilical definitiva ou secundária, substituindo a primária que é meio que “espremida” e deixada de lado.

Nesse momento, o disco embrionário com sua cavidade amniótica e vesícula umbilical secundária ficam suspensos no líquido da cavidade coriônica, porém presos à parede dessa cavidade, o córion, apenas por uma haste chamada de pedículo de conexão, uma estrutura que vai dar origem ao cordão umbilical no futuro.

O córion é formado pelo mesoderma extraembrionário somático, citotrofoblasto e sinciciotrofoblasto, estruturas que vão dar origem à parte fetal da placenta que já começa a se desenvolver durante a segunda semana, com o aparecimento de pequenas projeções do córion em direção ao endométrio chamadas de vilosidades coriônicas primárias. É a partir dessas vilosidades que a circulação uteroplacentária vai se desenvolver.

Agora, indo para a terceira semana de desenvolvimento, essa semana se inicia com a proliferação e a migração de algumas células do epiblasto em direção à linha média, em direção ao centro do epiblasto, formando uma linha central que a gente chama de linha primitiva, por volta do décimo quinto dia após a fecundação.

Em uma das extremidades dessa linha, se forma uma pequena expansão chamada de nó primitivo, que apresenta uma depressão central chamada de fosseta primitiva, a qual continua com uma depressão na linha primitiva chamada de sulco primitivo.

O aparecimento da linha primitiva estabelece, pela primeira vez, os eixos corporais do embrião, isto é, o eixo craniocaudal ou cefalocaudal estabelece as extremidades cefálica (onde a gente tem a futura membrana orofaríngea que vai dar origem à boca) e a extremidade caudal (onde a gente tem a futura membrana cloacal que vai dar origem ao ânus); o eixo dorsoventral (sendo o dorso ou as costas a superfície de cima e o ventre ou a barriga a superfície de baixo); e o eixo mediolateral (que estabelece onde é o meio do embrião e os lados direito e esquerdo do embrião).

Porém, o grande evento da terceira semana é a gastrulação, isto é, a transformação do disco embrionário bilaminar em um disco embrionário trilaminar.

Durante a gastrulação, algumas células do epiblasto migram para dentro da linha primitiva em um movimento chamado de ingressão. As primeiras células empurram e substituem as células do hipoblasto para formar uma camada de células chamada de endoderma. Enquanto isso, outras células se espalham entre o endoderma e o epiblasto para formar outra camada de células chamada mesoderma. E, por fim, as células que ficam no epiblasto passam a fazer parte de uma camada de células chamada de ectoderma, completando as três camadas de células do disco embrionário trilaminar.

A partir da linha primitiva, as células do mesoderma vão meio que se dividir em grupos de migração: um grupo de migração vai formar o mesoderma paraxial, outro grupo vai formar o mesoderma intermediário, e outro grupo, o mesoderma lateral. Cada um desses grupos de células do mesoderma vai dar origem a estruturas específicas no embrião.

Ao mesmo tempo, algumas células do epiblasto ainda migram para dentro do nó primitivo, na fosseta primitiva, e seguem pela linha média, pelo centro do embrião, em direção à extremidade cefálica, formando um tubo oco no meio do embrião chamado de processo notocordal, que, através de uma série de eventos (fusão do processo notocordal com o endoderma, formação da placa notocordal, dobramento e fechamento dessa placa), forma um cordão sólido e flexível chamado de notocorda.

Por volta do décimo oitavo dia, ao mesmo tempo que o processo notocordal está formando a notocorda, esse processo já começa a liberar moléculas sinalizadoras que induzem o espessamento de algumas células do ectoderma que se localizam acima do processo notocordal, formando a placa neural. A formação dessa placa dá início à neurulação, um processo responsável pelo desenvolvimento do sistema nervoso central.

Conforme o processo notocordal se desenvolve formando a notocorda, a placa neural também se desenvolve, formando uma depressão central chamada de sulco neural e duas elevações ao lado desse sulco chamadas de pregas neurais.

Ao mesmo tempo que a placa neural, o sulco neural e as pregas neurais vão se desenvolvendo, o mesoderma ao redor do processo notocordal, o mesoderma paraxial, começa a formar pares de uma massa de células chamados de somitos, induzidos pela notocorda.

Os pares de somitos continuam a se formar, seguindo a extensão da notocorda durante a terceira e a quarta semana. Esses somitos darão origem a várias estruturas do embrião, como, por exemplo, as vértebras da coluna vertebral.

Já o mesoderma lateral se divide em duas camadas: mesoderma somático e mesoderma esplâncnico, formando assim um espaço entre esses mesodermas, o celoma intraembrionário, que dará origem às cavidades do tronco.

Soma vem do grego sōma e significa “corpo”; portanto, o mesoderma somático, junto com o ectoderma acima, forma a somatopleura, que vai formar a parede do corpo. Já esplâncnico vem do grego splanchnikós e significa “vísceras”; portanto, o mesoderma esplâncnico, junto com o endoderma abaixo, forma a esplancnopleura, que vai formar o revestimento ou a parede das vísceras, como, por exemplo, o intestino.

E, para finalizar a terceira semana de desenvolvimento, lembre-se de que é nessa semana que começam a se formar as primeiras células sanguíneas e os primeiros vasos sanguíneos, no saco vitelínico, no pedículo de conexão e nas vilosidades coriônicas, que passam a ser chamadas de vilosidades coriônicas terciárias. Essa formação de vasos sanguíneos dá continuidade ao desenvolvimento da circulação uteroplacentária que vai se estabelecer nas próximas semanas.

Além disso, o tubo cardíaco é formado e já na virada para a quarta semana ele começa a contrair, ele começa a bater. É esse tubo cardíaco que vai se dobrar para formar o coração e que vai se unir aos vasos sanguíneos para formar o sistema cardiovascular.

No próximo vídeo, a gente continua com o desenvolvimento embrionário revisando o que acontece entre a quarta e a oitava semana de desenvolvimento, não perca!

Bom, então, resumindo tudo o que a gente viu nesse vídeo, lembre-se de que:

  • A primeira semana começa com a fecundação, que dá origem ao zigoto, o qual passa por uma série de clivagens enquanto vai “rolando” pela tuba uterina em direção ao útero. Nesse caminho, o zigoto vira mórula e a mórula vira blastocisto, que perde a zona pelúcida e inicia a implantação no endométrio.

  • A segunda semana começa com a divisão do trofoblasto em citotrofoblasto e sinciciotrofoblasto, enquanto o embrioblasto se divide em epiblasto e hipoblasto, formando o disco embrionário bilaminar. Surgem as lacunas do sinciciotrofoblasto, que iniciam o desenvolvimento da circulação uteroplacentária, e surgem também a cavidade amniótica, a vesícula umbilical e a cavidade coriônica, na segunda semana, que termina com o blastocisto completamente implantado no endométrio e com o disco embrionário bilaminar junto com a sua cavidade amniótica e vesícula umbilical suspensos pelo pedículo de conexão dentro da cavidade coriônica.

  • A terceira semana começa com a formação da linha primitiva, a partir da qual se inicia a gastrulação para a formação do disco embrionário trilaminar com seu endoderma, mesoderma e ectoderma. A partir do nó primitivo, surge o processo notocordal que forma a notocorda. São essas estruturas que induzem a formação da placa neural e a transformação de parte do mesoderma paraxial em somitos. Além disso, é na terceira semana que se inicia a formação do sistema cardiovascular, o primeiro sistema a se tornar funcional no embrião.

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A gente se vê em um próximo, abraço!

Sobre a autora

Mirian Ayumi Kurauti é apaixonada pela fisiologia humana, com uma trajetória acadêmica admirável. Ela se formou em Biomedicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), fez mestrado e doutorado em Biologia Funcional e Molecular com ênfase em Fisiologia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e ainda atuou como pesquisadora de pós-doutorado na mesma instituição. Além disso, já lecionou fisiologia humana na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e biologia celular na UEL. A sua última experiência como professora de fisiologia humana foi na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Fundadora da MK Educação Digital Ltda (MK Fisiologia), atualmente, Mirian é a mente criativa por trás de todos os conteúdos publicados nas redes sociais da empresa.

Apaixonada pela docência, Mirian adora dar aulas de fisiologia humana, mas de um jeito mais descontraído e se diverte muito ensinando. Ela está sempre buscando aprender algo novo não só sobre fisiologia, mas sobre qualquer coisa sobre a vida, o universo e tudo mais. Por isso, é uma consumidora compulsiva de conteúdos de divulgadores científicos. Nas horas vagas, você pode encontrá-la na piscina, treinando e participando de competições de natação. Para Mirian, a vida só tem graça, se ela tiver desafios a serem superados. Hoje, o seu maior desafio é ajudar o maior número de estudantes a entender de verdade a fisiologia humana, principalmente através de suas videoaulas publicadas no canal do YouTube MK Fisiologia.

Foto da autora do post Mirian Ayumi Kurauti criadora do MK Fisiologia
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