
NONA à TRIGÉSIMA OITAVA SEMANA de DESENVOLVIMENTO FETAL
Este post é a transcrição da videoaula publicada em nosso canal do YouTube "REVISÃO: NONA à TRIGÉSIMA OITAVA SEMANA de DESENVOLVIMENTO FETAL".
TRANSCRIÇÕESFISIOLOGIA DA REPRODUÇÃO
Mirian Kurauti
10/19/202610 min read
Nos vídeos anteriores, a gente revisou os principais eventos do desenvolvimento embrionário, que vai da primeira até a oitava semana. Agora, para fechar a nossa revisão, a gente vai ver o que acontece no desenvolvimento fetal, que vai da nona até a trigésima oitava semana, ou até o nascimento. Bora lá?
E aí pessoal, tudo bem com vocês?
Para quem ainda não me conhece, eu sou Mirian Kurauti, professora, mestre e doutora em fisiologia pela UNICAMP, e criadora aqui do canal MK Fisiologia, um canal que tem como principal objetivo descomplicar a fisiologia humana. Então, se você está precisando entender de verdade a fisiologia, já se inscreve no canal e ative as notificações para você não perder nenhuma videoaula que a gente postar por aqui.
Agora, sem mais delongas, bora fazer uma revisão sobre o desenvolvimento fetal?
Como vimos no vídeo anterior, no final da oitava semana, praticamente todos os órgãos e sistemas foram formados. A partir da nona semana, o embrião passa a ser chamado de feto, marcando o início do período fetal!
Nesse período, o foco agora deixa de ser a formação de novos órgãos e sistemas, e passa a ser a maturação funcional dos órgãos e sistemas já formados e o crescimento rápido de todas as estruturas do corpo.
Na nona semana, a cabeça do feto ainda é bem grande, correspondendo a quase metade do seu comprimento craniocaudal ou comprimento cabeça-nádega (CCN). A face é larga, os olhos ainda estão bem separados e as pálpebras estão fundidas. Os membros superiores atingem o seu comprimento relativo final, mas os membros inferiores ainda estão relativamente mais curtos, porque eles iniciam o seu desenvolvimento um pouco depois dos membros superiores.
Ainda na nona semana, a hematopoiese — a produção de células sanguíneas — é realizada principalmente pelo fígado e não mais pela vesícula umbilical.
Na décima semana, duas coisas muito importantes acontecem:
Primeiro, as alças intestinais — que sofriam uma herniação fisiológica temporária para o cordão umbilical devido à falta de espaço na cavidade abdominal — finalmente retornam para dentro da cavidade abdominal do feto.
E segundo, os rins começam a funcionar e a eliminar urina para a cavidade amniótica. Essa urina passa a ser a principal fonte de manutenção e renovação do líquido amniótico, que o feto deglute e reabsorve continuamente.
Na décima segunda semana, que marca o fim do primeiro trimestre de gestação, a ossificação do esqueleto se intensifica e a genitália externa masculina ou feminina se diferencia totalmente, permitindo a identificação precisa do sexo através da ultrassonografia a partir dessa semana.
No final da décima segunda semana, a produção de células sanguíneas passa a acontecer também no baço, e a placenta e o cordão umbilical já estão anatomicamente bem definidos para sustentar o feto até o final da gestação.
A placenta — formada pela parte materna, a decídua basal, e a parte fetal, o córion frondoso, formado pelas vilosidades coriônicas — atua como o principal órgão de trocas gasosas, nutrição, eliminação de resíduos metabólicos e produção hormonal (como a progesterona e os estrogênios).
Já o cordão umbilical, totalmente formado após o retorno das alças intestinais de volta para o abdômen, passa a conectar o feto à placenta através de três vasos sanguíneos: duas artérias umbilicais, que levam o sangue desoxigenado e rico em resíduos metabólicos do feto para a placenta (por isso representadas aqui em azul), e uma veia umbilical, que traz o sangue oxigenado e rico em nutrientes da placenta para o feto (por isso representada aqui em vermelho).
Agora, iniciando o segundo trimestre, entre a décima terceira e a décima sexta semana, o feto passa por um surto de crescimento acelerado. A cabeça agora é proporcionalmente menor em comparação ao tronco, e os membros inferiores atingem seu comprimento relativo final. Os olhos que estavam bem separados se aproximam e as orelhas já ficam mais próximas da sua posição definitiva na cabeça.
Nesse período, os movimentos articulares dos membros começam a ser coordenados, embora ainda sejam muito sutis para serem percebidos pela mãe. O feto passa a deglutir maiores quantidades de líquido amniótico — sim, contendo urina, como a gente já explicou, além de células que se descamam da pele —, dando início ao acúmulo de uma massa escura no seu intestino chamada de mecônio.
A partir da décima sétima semana, a taxa de crescimento em comprimento diminui, mas o feto começa a ganhar peso. É nessa fase que a pele fina ganha duas proteções contra o amolecimento da pele que pode ser causado pelo líquido amniótico: a lanugem, uma camada de pelos finos e macios que ajuda a fixar a vérnix caseosa, a segunda proteção — uma substância cremosa e gordurosa formada por secreções das glândulas sebáceas que ajuda a impermeabilizar a pele do feto.
Ainda na décima sétima semana, começa a se formar o tecido adiposo marrom, um tecido adiposo especializado na termogênese, isto é, produção de calor, que pode ser necessário após o nascimento.
Entre a décima oitava e a vigésima semana, o útero e a vagina já estão formados nas meninas. Nos meninos, os testículos começam o seu processo de descida, embora ainda estejam localizados na parte de trás da parede abdominal. É nesse intervalo que as mães costumam sentir pela primeira vez os movimentos fetais, os famosos “chutinhos” do bebê.
Entre a vigésima primeira e a vigésima quarta semana, o feto ganha bastante peso. A pele ainda é translúcida e avermelhada por causa dos capilares sanguíneos superficiais visíveis, pois a deposição de gordura subcutânea ainda é bem discreta. O feto já começa a apresentar movimentos rápidos dos olhos. O sistema auditivo se torna funcional e o feto passa a responder a sons, enquanto alguns movimentos reflexos começam a se desenvolver.
Por volta da vigésima quarta semana, um evento crucial para a sobrevivência do feto após o nascimento acontece nos pulmões: as células alveolares tipo II ou pneumócitos tipo II começam a secretar o surfactante pulmonar, uma mistura complexa de fosfolipídios e proteínas que reduz a tensão superficial na camada líquida dos alvéolos pulmonares e que vai ajudar a impedir o colapso dos alvéolos durante a expiração do ar.
Portanto, é a partir dessa vigésima quarta semana de desenvolvimento (que equivale à vigésima sexta semana de gestação) que o feto atinge o que chamamos de limite inferior da viabilidade fetal, ou seja, a capacidade de sobreviver fora do útero, desde que receba suporte intensivo em uma UTI neonatal.
Porém, vale lembrar que o risco de mortalidade e de complicações graves para um recém-nascido nessa semana de desenvolvimento ainda é extremamente alto, pois os pulmões e o sistema nervoso estão apenas começando a atingir a maturidade funcional necessária para a vida fora do útero.
Por volta da vigésima sexta semana de desenvolvimento, que equivale à vigésima oitava semana de gestação, o segundo trimestre termina e se inicia o terceiro e último trimestre de gestação. É por volta da vigésima sexta semana de desenvolvimento que as pálpebras, que estavam fundidas desde a oitava semana, finalmente se separam e o feto pode abrir e fechar os olhos. A retina se torna sensível à luz e o feto passa a reagir a estímulos de luz vindos de fora.
Além disso, entre a vigésima sexta e a vigésima nona semana, o sistema nervoso amadurece a ponto de conseguir coordenar movimentos respiratórios rítmicos e controlar a temperatura corporal. A medula óssea assume definitivamente a produção de células sanguíneas no lugar do fígado e do baço.
Nas meninas, ocorre um evento fundamental da gametogênese: todas as ovogônias (as células germinativas femininas) já terminaram suas divisões por mitose e se diferenciaram em ovócitos primários. Todos esses ovócitos já iniciaram a meiose I e ficam travados no meio dessa divisão, em repouso até a menina chegar à puberdade. Ou seja, a reserva de ovócitos primários de uma mulher já está completamente definida antes mesmo do nascimento!
A partir da trigésima semana, o feto passa a acumular grandes quantidades de gordura subcutânea (cerca de 8% do peso corporal total). A pele, antes mais enrugada e avermelhada, vai ficando mais preenchida, firme, lisa e rosada.
Por volta da trigésima segunda semana, nos meninos, os testículos normalmente completam a sua descida em direção à bolsa escrotal, em direção ao escroto. Lembre-se de que, embora a genitália esteja formada, a espermatogênese ainda não ocorre — os testículos só vão começar a produzir espermatozoides quando o menino chegar à puberdade. O que é diferente das meninas.
Entre a trigésima quinta e a trigésima oitava semana, o feto atinge a maturação final para a vida extrauterina. O feto apresenta um reflexo firme de preensão manual e orienta-se espontaneamente em direção à luz. A lanugem e a maior parte da vérnix caseosa se desprendem da pele, permanecendo apenas em algumas dobras da pele, como, por exemplo, nas dobras do pescoço e nas axilas.
A produção de surfactante pulmonar pelos pneumócitos tipo II atinge o seu pico, garantindo a expansão pulmonar adequada na primeira inspiração. Através da circulação placentária, ocorre a transferência maciça de anticorpos maternos (como a imunoglobulina G ou IgG), conferindo imunidade passiva ao recém-nascido contra diversos agentes infecciosos nos seus primeiros meses de vida.
O crânio do feto apresenta linhas de sutura e áreas membranosas chamadas fontanelas (popularmente conhecidas como 'moleiras'). As fontanelas permitem que os ossos cranianos se deformem ligeiramente e se sobreponham durante o encaixe e a passagem pelo canal de parto.
E aí, já com a fisionomia completamente formada, pesando em média entre 3 quilos e 3 quilos e 400 gramas e medindo cerca de 50 cm, com o sistema nervoso maduro para coordenar a sucção e a respiração, a jornada do desenvolvimento embrionário e fetal se encerra... e o bebê já está pronto para o nascimento!
Antes de finalizar, vale lembrar que a gente só fez uma revisão rápida sobre os principais eventos do desenvolvimento embrionário e fetal. Mas, se você precisar de mais detalhes sobre o desenvolvimento específico de cada sistema, é só consultar os livros de embriologia que eu deixei na descrição desse vídeo, beleza?
Bom, então resumindo tudo o que a gente viu nesse vídeo, lembre-se de que:
Entre a 9ª e a 12ª semana, acontece o crescimento do tronco, o retorno das alças intestinais do cordão umbilical de volta para o abdômen, os rins começam a produção de urina, a genitália externa é definida, e a produção de células sanguíneas passa a acontecer no fígado e no baço. Além disso, ao final desse período o cordão umbilical e a placenta já estão definidos anatomicamente e passam a atuar como o principal sistema de nutrição do feto.
Entre a 13ª e a 20ª semana, acontece um surto de crescimento. O mecônio é formado no intestino pela deglutição do líquido amniótico, e a lanugem e a vérnix caseosa aparecem na pele do feto. Além disso, o tecido adiposo marrom começa a se desenvolver e os movimentos fetais começam a ser percebidos pela mãe.
Entre a 21ª e a 29ª semana, o feto ganha bastante peso. Nos pulmões, a produção do surfactante pulmonar pelos pneumócitos tipo II se inicia e a medula óssea agora assume definitivamente a produção de células sanguíneas no feto. Nas meninas, a reserva total de ovócitos primários já está definida nos ovários.
E entre a 30ª e a 38ª semana, a deposição de gordura subcutânea acelera, deixando a pele mais preenchida e rosada. Nesse período acontece a transferência de muitos anticorpos maternos através da placenta para o feto. Nos meninos, os testículos finalmente descem para o escroto e, além disso, em ambos os sexos, ocorre o pico de produção de surfactante para evitar o colapso dos alvéolos quando o bebê respirar pela primeira vez.
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E como sempre, qualquer dúvida, pode deixar aí nos comentários que a gente tenta responder, beleza?
A gente se vê em um próximo, abraço!


Sobre a autora
Mirian Ayumi Kurauti é apaixonada pela fisiologia humana, com uma trajetória acadêmica admirável. Ela se formou em Biomedicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), fez mestrado e doutorado em Biologia Funcional e Molecular com ênfase em Fisiologia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e ainda atuou como pesquisadora de pós-doutorado na mesma instituição. Além disso, já lecionou fisiologia humana na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e biologia celular na UEL. A sua última experiência como professora de fisiologia humana foi na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Fundadora da MK Educação Digital Ltda (MK Fisiologia), atualmente, Mirian é a mente criativa por trás de todos os conteúdos publicados nas redes sociais da empresa.
Apaixonada pela docência, Mirian adora dar aulas de fisiologia humana, mas de um jeito mais descontraído e se diverte muito ensinando. Ela está sempre buscando aprender algo novo não só sobre fisiologia, mas sobre qualquer coisa sobre a vida, o universo e tudo mais. Por isso, é uma consumidora compulsiva de conteúdos de divulgadores científicos. Nas horas vagas, você pode encontrá-la na piscina, treinando e participando de competições de natação. Para Mirian, a vida só tem graça, se ela tiver desafios a serem superados. Hoje, o seu maior desafio é ajudar o maior número de estudantes a entender de verdade a fisiologia humana, principalmente através de suas videoaulas publicadas no canal do YouTube MK Fisiologia.



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